quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O que você deveria ter lido no meu diário

Sábado, 16 de abril de 2005
A saúde de vovô parece debilitar-se a cada dia. Isso é uma catástrofe ao meu coração, principalmente quando tento animá-lo e vejo a vontade de viver em seus olhos. Quando me deixo levar pelo brilho que tem ali e que quer ser meu um dia, em forma de orgulho. Um dia, ele ainda terá muito orgulho de mim, eu sei. Mas quando vejo que a morte pode realmente chegar e levá-lo pra sempre, o coração fica pequeno. O sentimento tentando explodir, e eu ali, querendo dar uma de forte. E eu aqui, usando a única via para aliviar a dor. Fico triste pela possibilidade de não poder realizar meus sonhos com ele do lado. Por mim, realizaria os meus e os deles. Faria de todos os nossos sonhos. Parece que só agora, com o apoio e as dificuldades que estamos dividindo (eu morando só e ele doente terminal), consigo perceber o quanto ele me ama. E a minha vontade é de mostrar de todas as formas o quanto o amo e o admiro. O orgulho que tenho por ele ser agricultor, matuto e ter uma joanete imensa no pé. Mostrar esse amor desmedido que só quer ter onde encostar. Eu não me perdoaria se dispensasse a oportunidade de ficar perto dele, ouvindo suas histórias de vida e aprendendo a viver em dupla.
Sexta-feira, 29 de abril de 2005
Vovô está magro e com aparência abatida. Papai disse que ele está cada vez mais afundando. Como posso ter um pai com tão pouca fé? Tive raiva, mas fiquei calada. Acho que o momento não é de indignações. Cada um que leve a sua dor, o seu amor e a sua esperança. E a minha, se puder ser útil, já é o suficiente. Estava feliz com a minha dedução até vovô me dizer que estava pertinho de ir embora, de me deixar no mundo. Como ele pôde falar uma coisa dessas no nosso corredor? Logo no meio das nossas conversas de vida. Parece que todos já esperam a morte dele, até ele mesmo. Eu não sou capaz de aceitar isso. Graças a Deus. Ao contrário disso, continuo minha dieta de engorda para poder doar sangue, caso ele precise.
Sexta-feira, 13 de maio de 2005
Minha colega de apartamento me convidou para ir a uma calourada hoje, mas estou preocupada demais com a cirurgia que vovô fará amanhã. Tenho medo de que ele não resista, mas estou rezando com todas as forças e tenho certeza que as minhas melhores energias estarão com ele. Deve estar sendo difícil para ele viver essa tensão no dia do seu aniversário. Hoje, quando liguei, ele ficou querendo desligar o telefone, encurtar o papo, por causa da conta no fim do mês. Tentou disfarçar, pareceu amargo com o bolo que levaram pra ele no hospital. Como eu sou idiota! Deveria ter brigado com papai até ele me deixar viajar com vovô. Eu no telefone e toda a família ao lado dele. O abraço de hoje foi abortado e vai ter que esperá-lo voltar. Penso eu que o momento crítico é amanhã, na cirurgia. Se tudo der certo amanhã, eu me alivio e ainda tenho vovô pelo menos mais um ano comigo.
Sábado, 14 de maio de 2005
Vovô conseguiu sair da cirurgia, mas deverá se alimentar por uma sonda até o fim da vida. Como vai ser difícil negar um pedaço de queijo assado pro velho que mais amo no mundo (junto e empatado com o outro vô, claro)! Queria passar esse fim de semana com ele, mas parece que ele ainda terá que ficar mais um tempo no hospital. De qualquer forma, o pior já passou.
Quarta-feira, 18 de maio de 2005
Hoje recebi a pior das notícias: vovô faleceu. Primeiro, foi um desespero. Quis quebrar o portão de casa que teimava em não abrir logo. Saí correndo atrás de alguém que me levasse para a casa dele. Ninguém. A moça que divide o apartamento comigo ligou depois que saí reclamando porque achou que eu tivesse quebrado a chave no cadeado, e ela não conseguia entrar em casa. Uma tia distante, que me deu carona, foi brigando o tempo todo por conta da velocidade, ora porque estava baixa, ora por estar alta. Cheguei, olhei a escada e não tinha ninguém lá em cima sorrindo e se oferecendo para carregar as minhas malas. Vazio. Só sobrou o vazio. E uma indignação: o mundo não tem o direito de continuar o mesmo. Meu avô morreu, pôxa!

domingo, 27 de setembro de 2009

Do que você esqueceu de me ensinar

Vô, você esqueceu de me ensinar como lidar com a deslealdade. De você, só aprendi amor, memória e afins. O que uma pessoa deve fazer quando sua sombra se faz negra, deixando a alma no caminho? Eu fico querendo juntar seus pedaços no instante e só tenho essas cartas para guardá-las. O problema é que a alma que as pessoas deixam comigo já não cabe nessas entrelinhas.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Inquietação

A saudade é um amor que não tem onde encostar. Procuro você todos os dias, vô. O meu maior encosto. Nas fotos, na vida, nos sinais. Apalpo o vento para me certificar se você realmente não deixou nenhuma palavra no ar. Um sussurro, uma lembrança. Talvez um conselho para que eu enfrentasse melhor tudo o que preciso passar agora. Sei que deixastes aqui um coração com o qual eu pudesse dividir a minha dor. O único erro foi esquecer de lhe dar as instruções. Hoje, quem deveria afagar a agonia é a minha maior preocupação: meu pai. Escrevo isso porque você merece saber que ganhou o meu aval: é muito difícil ser filho. E não falo isso pelas jornadas extras de trabalho rurícola para provar que ser agricultor vale mais a pena do que ser padre. Nem mesmo pelos chamados do pai para ordenhar as vacas às cinco da manhã, logo após chegar da farra e num estado quase ébrio. Essas aventuras são originalmente tuas, vô, e nem que eu quisesse poderia imitá-las. Os tempos são outros, mas posso te garantir que as dificuldades não são menores. Aqui, precisamos viver com os problemas inerentes à família cujos pais se separam, a inquietação com os caminhos do mundo, a instabilidade do final do curso superior e a responsabilidade da autosustentação. Tudo isso sem você aqui pra tomar aqueles velhos goles de uísque e acalmar os ânimos. Sem poder ser neto para equilibrar o fato de ser filho.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

um casulo

Gostaria de poder entrar dentro de mim e ficar só com o que foi bom dessa vida. Talvez assim eu pudesse te encontrar, te abraçar e sorrir como eu só poderia fazer pra você.

Inversão

Vô, não tenho conseguido me equilibrar. Não tenho gente, fio e nem corda em que me apoiar. Não tenho você segurando a minha mão e dizendo para ter paciência e esperar as coisas se resolverem. Viraram o mundo de ponta cabeça e me esqueceram ali: girando, com os pés teimando em obedecer as leis da física. O mundo parou, e eu nem posso descer! Então eu fico tentando me distanciar das preocupações e entendendo o quanto é difícil a vida dos nossos pais quando estamos começando a amadurecer, quando temos sede do que a gente pensa que é a vida. Hoje eu me sinto um pouco (ou muito) mãe dos meus pais. Isso porque o senhor não está mais aqui para lhes puxar as orelhas e pôr de castigo ajoelhados no milho. Eu, que sempre achei primitivas essas tuas atitudes, hoje lamento não ter autoridade para fazer igual.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Do muito a se dizer

Hoje pensei o quanto (ainda) preciso lembrar do passado e das coisas que não pude te dizer olhando nos olhos. Sei que muitas outras sequer precisam ser ditas, mas gostaria de te contar a importância que você teve - e ainda tem - na minha vida. Gosto de lembrar de você brincando de ser meu porto seguro enquanto eu vivia despretenciosamente. De você ser apenas você sabe, vô? De não ser senhor, distante, velho. Mas de ser apenas você, meu avô, meu amigo. Lembro que você sorria da minha forma despreocupada de fazer planos na vida. Da gente discutindo as profissões que poderiam combinar comigo. Obrigada por guardar os rastros das minhas escolhas erradas como tesouro. Obrigada pela preocupação de poder conversar comigo através dos símbolos, das lembranças e das coisas que o senhor guardava no sofre. O senhor sabia e eu também soube depois: a minha vida não seria sem você.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Sobre a minha fé

O rádio agora soa rouco. A nossa rede já não cabe mais no corredor. Não tenho pra onde correr quando a carne enfraquece, e você não deve fazer idéia de quantas vezes o chão se liquidifica e me suspende no ar, vô! Eu fico sem saber o que fazer. Não tenho sequer onde descarregar meu amor. Uma parte do carinho fica presa em mim enquanto a outra se espalha pelo vento em busca de ti. Do teu rosto. Do teu abraço que não vem. Logo depois que você se foi, vovó me deu uma camisa tua. Foi o presente mais bonito que já recebi: uma camisa de botões ainda com o teu cheiro. Por vários dias me agarrei a ela o quanto pude, na esperança de que você ficasse mais um pouco comigo. Uma forma de abafar a saudade. Chorei tanto, vô. Ainda hoje choro de saudade, de amor. A minha vista embaça e procura a tua imagem, mesmo abstrata, sorrindo pra mim no alto da escada. Porque a gente só tem noção da importância das pessoas quando elas vão embora? Lembro dos segredos que confidenciamos e de como transformamos os abismos de nossa grande diferença de idade em ponte, elo, troca, conhecimento. Você me ensinava a viver com a paciência que não pôde ter com papai. Eu te ensinava a sorrir, apesar do câncer. Mesmo depois do almoço, quando íamos deitar a espera da tua dor, eu imaginava que ainda teríamos muito tempo juntos. Você apertava os olhos em sofrimento, e eu com a fé de que você seria curado.

domingo, 13 de setembro de 2009

O medo e a exposição

Gostaria de começar a dizer tudo agora, mas tem gente por perto e não consigo simplesmente ir abrindo meu coração. Tenho medo de me expor. De pensar alto demais e espantar os sentimentos que moram em mim. Prefiro ficar com os dizeres da saudade que já é tanta.

Amor.