A saudade é um amor que não tem onde encostar. Procuro você todos os dias, vô. O meu maior encosto. Nas fotos, na vida, nos sinais. Apalpo o vento para me certificar se você realmente não deixou nenhuma palavra no ar. Um sussurro, uma lembrança. Talvez um conselho para que eu enfrentasse melhor tudo o que preciso passar agora. Sei que deixastes aqui um coração com o qual eu pudesse dividir a minha dor. O único erro foi esquecer de lhe dar as instruções. Hoje, quem deveria afagar a agonia é a minha maior preocupação: meu pai. Escrevo isso porque você merece saber que ganhou o meu aval: é muito difícil ser filho. E não falo isso pelas jornadas extras de trabalho rurícola para provar que ser agricultor vale mais a pena do que ser padre. Nem mesmo pelos chamados do pai para ordenhar as vacas às cinco da manhã, logo após chegar da farra e num estado quase ébrio. Essas aventuras são originalmente tuas, vô, e nem que eu quisesse poderia imitá-las. Os tempos são outros, mas posso te garantir que as dificuldades não são menores. Aqui, precisamos viver com os problemas inerentes à família cujos pais se separam, a inquietação com os caminhos do mundo, a instabilidade do final do curso superior e a responsabilidade da autosustentação. Tudo isso sem você aqui pra tomar aqueles velhos goles de uísque e acalmar os ânimos. Sem poder ser neto para equilibrar o fato de ser filho.
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