O rádio agora soa rouco. A nossa rede já não cabe mais no corredor. Não tenho pra onde correr quando a carne enfraquece, e você não deve fazer idéia de quantas vezes o chão se liquidifica e me suspende no ar, vô! Eu fico sem saber o que fazer. Não tenho sequer onde descarregar meu amor. Uma parte do carinho fica presa em mim enquanto a outra se espalha pelo vento em busca de ti. Do teu rosto. Do teu abraço que não vem. Logo depois que você se foi, vovó me deu uma camisa tua. Foi o presente mais bonito que já recebi: uma camisa de botões ainda com o teu cheiro. Por vários dias me agarrei a ela o quanto pude, na esperança de que você ficasse mais um pouco comigo. Uma forma de abafar a saudade. Chorei tanto, vô. Ainda hoje choro de saudade, de amor. A minha vista embaça e procura a tua imagem, mesmo abstrata, sorrindo pra mim no alto da escada. Porque a gente só tem noção da importância das pessoas quando elas vão embora? Lembro dos segredos que confidenciamos e de como transformamos os abismos de nossa grande diferença de idade em ponte, elo, troca, conhecimento. Você me ensinava a viver com a paciência que não pôde ter com papai. Eu te ensinava a sorrir, apesar do câncer. Mesmo depois do almoço, quando íamos deitar a espera da tua dor, eu imaginava que ainda teríamos muito tempo juntos. Você apertava os olhos em sofrimento, e eu com a fé de que você seria curado.
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